Avenir Light é uma fonte limpa e elegante preferida pelos designers. É boa para os olhos e uma ótima fonte de títulos, parágrafos e mais.

Categorias Conceituais do pensamento de Nietzsche

Produção: Rommel Gonçalves de Sá.

Manaus, 2020.

Conceitos abordados: Relação de poder; Moral de forte e moral de fraco; moral dos ressentidos; Sadio e doente; Vida e morte; Valores e inversão de valores; Vontade de poder e super-homem; instinto  nobre e moral hegemônica (animal homem de rebanho); A morte de deus; O eterno retorno; Amor fati; o “eu” e nossa verdade; divinização; razão e emoção; apolíneo e dionisíaco; o trágico.

 

 

     Nietzsche, filósofo alemão do século XIX, é aclamado dentre os três maiores pensadores da história da filosofia, ao lado de Marx e Freud. É considerado um dos pensadores mais polêmicos, pois sua filosofia se mostra na forma de um antidogmatismo avassalador, que desmontou uma série de pensadores que o antecederam e muitos outros que o sucederam, além de sacudir instituições e religiões como o Cristianismo. Publicou várias obras, como: Assim falou Zaratustra, A gaia ciência, Ecce Homo, Além do bem e do mal, Aurora, Vontade de potência, e outras. A obra “Assim Falou Zaratustra” contem seus conceitos mais elementares. Esta obra é considerada um evangelho para os fortes, ao contrário da Bíblia cristã, que é um evangelho para os fracos. Entendendo-se por fortes, aqueles que querem dominar e, por fracos, aqueles que querem ser dominados ou escravizados.

     Os conceitos de Nietzsche são mais fáceis de compreender quando os colocamos em uma relação de poder. Muitos autores falam sobre relação de poder, como Maquiavel, Hegel, Marx, Foucault,e outros. A etimologia da palavra poder (que vem do latim potere, que quer dizer “posse”, “ser capaz”, “autoridade”) sugere dotar uma palavra ou ação de força, de persuasão, de controle, FERREIRINHA; RAITZ (2010) .  Relação de poder pode ser concebida como a relação que se estabelece entre duas pessoas, portadoras de consciências e de individualidades, e uma delas passa a exercer o poder sobre a outra, controlando a outra. Para esse controle ser feito é necessário que a mesma retire para si uma boa parte da consciência do outro e o deixe próximo ao que há de animal dentro de nós. E como somente os animais se permitem domesticar, então esse outro fica vulnerável à dominação, ao controle. Assim, o que domina passa a se chamar “forte” e o dominado passa a se chamar “fraco”.

     A moral do forte está relacionada a tudo aquilo que o torna dominador e senhor dentro de uma relação de poder, como: o uso do verbo na primeira pessoa “eu” (afirmação de si, afirmação da própria existência dentro dessa relação de poder, ele sabe quem ele é, reconhece a si mesmo), tem consciência de si, tem a alegria. Tudo isso, ao mesmo tempo, é afirmação da vida, a existência do dominador dentro da relação de poder. E é tudo isso que o torna sadio, essa afirmação da vida. E todo esse conjunto de princípios que afirmam a vida são os valores de bem.  

     Além disso, o forte é dotado daquilo que mais o caracteriza, a vontade de poder. A vontade de poder é a capacidade do forte de lançar para o outro sua própria subjetividade na forma de uma moral, de costumes que o manterão na submissão, assim o forte imprime ou deixa sua marca no dominado. E é a isso que Nietzsche chama de super-homem, aquele que tem vontade de poder e, por meio dela é capaz de elaborar uma moral para dominar o outro. Para Nietzsche, a vontade deve ser utilizada para assegurar apenas as necessidades básicas (comer, beber, dormir, reprodução), mas principalmente, para dominar, isso é vontade de poder.

     A moral do fraco está relacionada a tudo aquilo que o torna dominado e submisso em uma relação de poder, como: o uso do verbo na terceira pessoa “ele” (negação de si e reforço da afirmação do forte, negação da própria existência dentro da relação de poder, ele não sabe quem ele é, não reconhece a si mesmo), consciência infeliz. Tudo isso nega a vida, mas afirma a morte. E é tudo isso que o torna doente e o leva à morte. Os valores de mal são os princípios que negam a vida. Além disso, o fraco é dotado daquilo que mais o caracteriza, a moral dos ressentidos. O ressentimento é a forma que o fraco encontrou para adoecer o forte e leva-lo à morte, passando para o lugar dele na relação de poder. E isso é feito por meio da culpa, colocando uma culpa dentro do forte, exercendo um controle interno no forte, é a moralidade. E essa culpa vem por meio de sentenças do cristianismo, como: “você me domina, me pisa, mas você irá para o inferno se não passar a me respeitar”, “Deus está te vendo”. A aceitação dessa culpa, enfraquece, adoece e faz morrer o forte. Daí ocorre a inversão de valores, o que se defendia como doença e morte, agora se defende como sadio e vida.

     Quando Nietzsche fala sobre moral de forte se refere a um tipo seleto dentro da sociedade na qual uma minoria de pessoas afirma a vida, por essa razão são dotados de instinto nobre, os homens de instinto nobre. Com instinto nobre se toma a vontade como algo que se volta para a dominação. E quando fala de moral de fraco, fala de moral hegemônica por se referir a uma maioria que afirma a morte, são os animais homens de rebanhos. Os animais homens de rebanho tomam a vontade como para se entregarem a submissão, a dependência. Nietzsche (2001, 259) contrapõe a moral hegemônica (dos animais homens de rebanho) aos homens de instinto nobre e diz “a vida mesma é essencialmente apropriação, ofensa, sujeição do que é estranho e mais fraco, opressão, dureza, imposição de formas próprias, incorporação e, no mínimo e mais comedido, exploração” .

     Nietzsche culpa Platão pela forma invertida e mentirosa de se pensar no Ocidente, até hoje, e que se propagou pelo mundo e, no tempo, a partir do momento em que o Cristianismo o adotou para compor sua fundamentação. Contra o pensamento de Platão, Nietzsche oferece três conceitos para destruí-lo: a morte de Deus, o eterno retorno e amor fati. 

     É na solidão e distante do rebanho que encontramos a condição para conhecer o vazio da morte de Deus. Deus é um grande problema de linguagem, mas que adoeceu e, ainda adoece sociedades. Deus é uma hiperbólica e bela mentira transformada em verdade, por políticos, religiosos e por aqueles que negam a própria vida. Quando se pronuncia a palavra “Deus”, se enuncia que “Deus é tudo”. Coloca-se Deus na categoria de universalidade, assim como Platão ensaiava em sua teoria dos dois mundos.

     Platão dividia o mundo em dois: mundo das ideias e mundo sensível. O mundo das ideias é o mundo onde estão os objetos universais, estáticos, imutáveis e entregues ao eterno, incapazes de mudarem a si  e o mundo. São anunciados pelos termos “todo”, “tudo”. Já, no mundo sensível, residem os objetos singulares, em movimento e entregues ao tempo, como Maria, Pedro, João, eu. O mundo sensível é o nosso verdadeiro mundo, pois é onde nos percebemos, nos tornamos concretos e fatuais.  No mundo das ideias residem apenas os conceitos, as ideias, como por exemplo, o conceito de “homem” que, implicitamente, tem a mesma conotação de “todo homem”. Porém, este homem não enxerga contextos, não diz a que homens se refere, se é um homem medieval, se é um homem do paleolítico, se é um homem pobre, um homem burguês, se é corrupto. É nesse sentido que “homem” se torna algo abstrato. E, sabemos muito bem, que não temos capacidade para conhecermos coisas universais ou abstratas. Eu, Rommel, mero estivador da educação, pelo menos, tenho boa sanidade mental para dizer que não sou possuidor dessa capacidade, não me julgo tão evoluído assim para isso! Penso que Darwin, já iniciando no Alzheimer, se esqueceu de me colocar em sua teoria evolucionista, pois sou muito primitivo ainda, diante da arrogância das maiorias, que só não são esquizofrênicas por estarem amparadas por Durkheim  (1983), no conceito de “normal”. De que vale alguém dizer que “conhece” o universal sem conhecer as singularidades...? Parece-me insano, isso...! Mas Deus está morto porque é tido como “tudo”, então acaba sendo nada.

     E assim, as pessoas não se conformam e se lançam no desespero, no desatino, na não aceitação desse luto e vagam gelidamente sem sentido pela vastidão do mundo, presas a tempos míticos, a espera do que nunca poderá vir. Esse é o lado sombrio da morte de Deus. Porém, como forma de consolação por esse incontido pesar, acreditam, já há mais de dois mil anos, que o Deus morto (as coisas postas na universalidade), do mundo dos mortos, governa o mundo dos vivos (as coisas concretas e singulares), onde ocorrem os fatos. Nessa concepção há a crença de que o mundo dos vivos é iluminado pelo mundo dos mortos. E essa iluminação se mostra na forma de verdade e de justiça. Para se alcançar a verdade de um objeto qualquer, mas singular, concreto, é preciso se recorrer a sua correspondente ideia ou conceito. Caso haja uma correspondência entre o objeto em sua universalidade e o objeto singular, então se chegou à verdade dele. E é essa recorrência da singularidade à universalidade em busca da verdade, para confirmar sua verdade, que Nietzsche passou a chamar de eterno retorno. A dependência do mundo dos vivos em relação ao mundo dos mortos, na forma de se recorrer a ele em busca da verdade e agir e viver orientado por essa pseudoverdade, é o eterno retorno. No Direito, as leis são postas de forma universal, por isso seus enunciados são “Todo cidadão tem direito a isso ou a aquilo...”, cabendo ao advogado fazer com que a lei enxergue o caso concreto, o fato, para lhe contemplar com a justiça. É um bom exemplo de aplicação do eterno retorno.

     Da teoria dos dois mundos, de Platão, conforme explanei brevemente acima, extraímos os conceitos de mundo das ideias e de mundo sensível. Acontece que, no decorrer da história, como o Cristianismo foi difundido e imposto ao mundo pelo uso dos aparelhamentos ideológico e repressor do Estado Romano, enquanto Império, a força da tradição cristã se encarregou de dizer que o mundo dos vivos deve ser governado pelo mundo dos mortos. Daí é bom nem pensarmos nos processos psicológicos gerados para fazer com que as pessoas passassem a conceber isso como verdade absoluta. Mas, distante dessas patologias sociais, Nietzsche nos aconselha a termos uma vida simples, aceitando nossa singularidade, própria do mundo concreto que realmente habitamos, aceitando o que recebemos e o que retiram de nós, aceitando os fatos e seus desdobramentos sobre nós mesmos, pois aqui é o nosso mundo, é nele o mundo da vida e, assim, devemos ser éticos em reconhecermos nossa simplicidade, pois é aqui onde nossos destinos são traçados de forma imanente, sem depender de outro mundo, o mundo dos mortos. Aqui é o mundo dos fatos, onde tudo acontece e se transforma. Portanto, devemos amar o fato, o destino, sem culparmos ninguém além deste mundo, rompendo a dependência deste mundo concreto (singularidade) com o mundo dos mortos (universalidade), rompendo com o eterno retorno. É isso que Nietzsche chama de amor fati. Pode-se dizer que o amor fati é uma saída ética, da arrogância e da loucura para se assumir a vida que temos (singularidade) e deixarmos de viver a vida que não temos (universalidade).

     Em se tratando de estética, Nietzsche faz uma distinção entre essência e aparência, nas suas obras “A filosofia na época trágica dos gregos” e “A origem da tragédia”. Para ele, dentro de nós reside nossa própria verdade, nossa essência, nosso eu. E essa essência faz sermos quem realmente somos e nela habita nossa verdadeira verdade. E fora de nós está nossa aparência, nossa máscara, para vivermos em sociedade. Porém, não suportamos a nossa própria verdade, por ser ela um horrível monstro, a Medusa. Descer às profundezas do abismo do nosso eu e olhar para ela é experimentar a morte, jamais se sairá impune desse olhar. Para chegarmos à sociedade e convivermos dentro dela se faz necessário encobrir nosso monstro, a Medusa, com um véu de beleza, é preciso torná-la bela. E isso é feito por meio de um processo chamado de divinização, que quer dizer, tornar belo. Lembrando que a beleza só existe porque há algo de horrível para ser escondido, senão a beleza não teria sentido. Imagine o que toda a beleza de Deus deve esconder...! Essência é o que está dentro de nós, nossa profundeza; aparência, a bela aparência, é o que somos fora de nós, nossa superfície, é o caminho para chegarmos até a sociedade.

     Daí, Nietzsche aprofunda mais ainda sua concepção de estética. E recorre a poderosas figuras de linguagem, como é característica sua, para expor e divagar sobre arte, de forma poética, porém extremamente crítica, depois de intensos mergulhos de estudos acerca de aspectos da vida dos gregos na antiguidade, principalmente, no que se refere à comédia e tragédia. Com esses estudos elaborou três conceitos importantíssimos: apolíneo, dionisíaco e trágico. E deles anunciou que a vida é governada por duas forças: razão e emoção.

     O apolíneo é uma figura de linguagem referente ao deus Apolo, deus da razão. Aqui, razão é posta como aquilo que atribui individualidade e faz o monstro, a Medusa que é nossa inquilina, chegar até nossa superfície e ganhar existência social. É aqui onde ocorre o “tornar diferente”. E é essa individualidade que permite cada um ser cada um e representar a vontade, a Medusa, de um modo específico. É assim que existimos, é assim que a vida se torna possível, sermos o que nossa individualidade prescreve. Por isso que João é João, Maria é Maria e Pedro é Pedro. Porém, é exatamente, essa individualidade concedida por Apolo, o véu que encobre o que há de horrível dentro de nós e que, se chegasse até à sociedade sem esse véu, ninguém suportaria.

     Já o dionisíaco é uma figura de linguagem referente ao deus Dionísio, deus da embriaguez, dos estados etílicos, da perdição, da devassidão. Aqui, embriaguez é posta como aquilo que leva a perda da individualidade, é a emoção, pois com ela, não se pensa, se age cegamente. É aqui onde ocorre o “tornar igual”, não há mais distinção entre as pessoas, já que perderam suas individualidades, o espírito de rebanho toma conta. Com isso, se tornam mais vulneráveis a dominação, ao controle, já que perderam a individualidade e, com isso, perderam a razão. João, Pedro e Maria foram contratados para trabalhar em uma empresa. Antes de ingressarem na empresa, cada um tinha sua individualidade, estavam no apolíneo. Ao iniciarem suas atividades dentro a empresa, no primeiro dia, o superior deles ditou as normas da empresa, dizendo: aqui, dentro desta empresa, cada um de vocês terá de vestir a blusa da empresa, cada um de vocês terá de ser a empresa. Isso revela uma retirada das individualidades dos três, uma objetivação, é a presença do dionisíaco.

     Além disso, Nietzsche coloca um elemento avassalador, em termos conceituais, dentro dessa situação estética toda. Invoca um conceito, chamado de trágico. E diz que quando Apolo se encontra com Dionísio, os dois travam uma batalha mortal, pois são inimigos. E, normalmente, quem costuma morrer é Apolo, a razão. A emoção mata a razão. E é isso que ficou conhecido por trágico. Porém, apesar de Apolo ser a bela aparência, o sonho, Dionísio é a verdade. Com Dionísio ocorre a morte de Deus e a libertação do homem. Desmorona a ignorância chamada fé em nada.  "Nós temos a arte a fim de não morrer de verdade", Nietzsche (1992).

REFERÊNCIAS

      


NIETZSCHE, F. Além do bem e do mal. Tradução: Márcio Pugliesi. Hemus. S. P., 2001, 259. Disponível em: 

<http://www.scielo.br/pdf/rap/v44n2/08.pdf>

DURKHEIM, Émile. As Regras do Método Sociológico. Trad. de Carlos Alberto Ribeiro de Moura. São Paulo: Abril Cultural, 2a. edição, série “Os Pensadores”. Seleção de textos de José Arthur Gianotti. 1983.

NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da tragédia, ou Helenismo e pessimismo.

Tradução, notas e posfácio J. Guinsburg. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

O  SENSO COMUM OU CONHECIMENTO EMPÍRICO 

Produção: Rommel Gonçalves de Sá

Manaus, 2012.

     O conhecimento empírico, também conhecido como senso comum é o conhecimento relacionado ao nosso cotidiano, ao nosso dia-a-dia, à experiência de vida que temos. Quando a mãe diz a sua filha, adolescente, para não beber suco de limão durante o período menstrual, pois pode interferir no mesmo, isso é baseado apenas no que a tradição coloca, mas não tem comprovação científica nenhuma. Contar as horas, somente pela posição do Sol, pela experiência de presenciar isso todos os dias, sem instrumentação nenhuma, também é senso comum. Fazer a previsão do tempo, pelo movimento de certos pássaros seria outro exemplo. O senso comum pode servir de ponto de partida para o conhecimento científico, mas apenas como ponto de partida, pois suas verdades são duvidosas em se tratando de Ciência. E Platão, na antiguidade grega, através do “Mito da Caverna”, que é uma passagem da obra “A República”, já chamava a atenção para o fato do senso comum ser uma forma de escravizar o homem.

     Vale dizer, antes de tudo e antes de nada, que o senso comum merece respeito, pois compõe e define o modo de vida de muitas comunidades e até, de sociedades. Tornando-se algo compreensível dentro dos seus cotidianos, principalmente, porque nem todos precisam fazer ciência de forma objetiva, como na ciência oficial praticada nas áreas urbanas. Se formos fazer pesquisa científica em uma comunidade que se fundamenta no senso comum em suas práticas, então será dever ético da nossa parte apenas compreender os sentidos e significados atribuídos por eles ao mundo sem que venhamos a formular juízos de valor a eles só por viverem a partir do senso comum. Nesse caso, o senso comum faz parte da vida deles, suas vidas são organizadas por ele. Porém, para fazermos ciência utilizando o senso comum é que passamos a esbarrar em problemas que poderão encaminhar nossas pesquisas para o erro. Não admitiríamos que um médico se utilize do senso comum para fazer diagnósticos, mas é compreensível que uma rezadeira faz curas espirituais em uma comunidade ribeirinha da Amazônia.

     E é por ser um conhecimento duvidoso e, de certo modo, até nocivo, que iremos analisar suas principais características: linguagem vulgar, a ingenuidade, o romantismo, fatos isolados, generalização apressada, fragmentação, reações emocionais e a ausência de métodos.

     A linguagem vulgar é uma característica que denuncia, de imediato, uma recorrência ao senso comum. Essa linguagem apresenta termos que não são reconhecidos pela comunidade científica, assim como reconhece os conceitos utilizados pela Ciência. A Ciência trabalha com conceitos construídos por diversos autores reconhecidos pela comunidade científica. E, tais conceitos, se tornam comuns, em termos de significados em qualquer lugar do mundo onde se pratique ciência. Já a linguagem vulgar, própria do senso comum, não deve ser praticada dentro do ambiente onde se pratica ciência, justamente por não serem reconhecidos pela comunidade científica e, também, por ser uma linguagem do cotidiano de cada pessoa, por ser subjetiva, não comum em todos os lugares. “Mulher buchuda”, “ir para a cama para fazer filho” são termos que, talvez só se saiba quais os seus significados, aqui no Brasil.

     A ingenuidade está associada ao fato do sujeito não ser crítico. Isso significa que o mesmo não consegue perceber a negação de uma coisa que lhe é afirmada. Com isso, não consegue, também, apresentar a contradição. Uma garota fica empolgada e encantada com as flores que recebeu do seu namorado, mas não consegue perceber suas intenções... É o eleitor, que ao receber um rancho, contendo apenas 1 Kg de pacú e 1Kg de farinha, não percebe que a intenção de quem o deu é de ganhar votos; enquanto esse mísero eleitor torna-se eternamente grato pelo óbolo recebido, quem deu o tal rancho ficará agradecido somente até o dia da eleição e, ainda gozará de 4, 6, 8 anos ou mais no poder, recebendo um salário digno, o suficiente para manter seu eleitorado no senso comum por muitas gerações, investindo em uma idiotice necessária a ele.

     O romantismo não é tão bom quanto se pensa, pois, em se tratando de senso comum, corresponde a uma sobreposição dos sentidos à razão. Implica em confiarmos plenamente em nossos sentidos. Achamos que: o que vemos é verdadeiro; o que escutamos é verdadeiro; o que sentimos é verdadeiro, também. E, acreditamos sem ao menos duvidarmos. Quando Claudio Ptolomeu chegou à conclusão de que o centro do sistema solar era a Terra, enganou-se, pois tomou como referência o nosso planeta, parado, seguido dos deslocamentos do Sol em seu nascente e em seu poente. Foi necessário Galileu surgir com o telescópio para provar o contrário. E deixou bem claro que os instrumentos científicos representam uma forma de que não devemos confiar tanto em nossos sentidos. É o sujeito que acredita no big brother, com o jogo de imagens e diálogos idiotas. Fazer uma leitura romântica sobre o mundo ou sobre a realidade é depositar um forte crédito de confiança nos próprios sentidos; mas até que ponto são tão confiáveis assim?

     Os fatos isolados representam uma quantidade insuficiente de fatos, insuficientes para que se efetue um julgamento. Nem sempre está associado a um só fato, depende do universo a ser considerado. Se em uma sala de aula com 40 alunos, apenas 3 foram reprovados em filosofia, não podemos julgar a turma toda em função dos 3, pois os mesmos, diante da totalidade de 40 alunos, são um fato isolado. Outro exemplo Pode ser: se Maria flagrou seu namorado com outra mulher e, a partir disso, julgou todos os homens do mundo, afirmando que “homem nenhum presta”, então, partiu de um fato isolado também, pois não experimentou todos eles ou parte deles para julgar.

     A fragmentação também é outra característica marcante no senso comum. Implica em não se ver a realidade como um sistema, dentro do qual as partes integrantes estejam interligadas, relacionadas. Quando se diz que política não tem nada a ver com educação, pode ser um bom exemplo disso, pois sabemos que há sim uma relação entre os dois, afinal quem nomeia o ministro da educação é o presidente da república, que é um político. Assim, o senso comum é um conhecimento fragmentado.

     O sujeito que vive no senso comum é marcado por reações emocionais. Essas reações ocorrem porque a emoção predomina sobre a razão, impedindo que reaja racionalmente. É o aluno que julga mal e de imediato o professor, ao receber o resultado da prova; e amassa e rasga a prova na “cara” do professor; e, em outro momento, pede desculpas, é quando a razão parece ser retomada. É o funcionário que agride o patrão, que acabou de lhe dar as contas, sem pensar nos motivos e consequências.

     Podemos dizer que o senso comum é um conhecimento que se dá de qualquer forma, não se seguem procedimentos para se elaborar conclusões. É bem flagrante a ausência de métodos, ficando por conta de cada fazer as conclusões. Não há, portanto, procedimentos comuns e objetivos, como ocorre no conhecimento científico, para serem seguidos.

     Diante do exposto, se pode dizer que o senso comum abre espaço para que a ideologia se aposse da consciência do sujeito e passe a determinar sua prática e sua vida; além de deixá-lo bem longe da verdadeira verdade; além de deixá-lo na condição de depender da confiança nos sentidos e da confiança nas intenções dos outros. O senso comum é uma grande ilusão que mantém o sujeito no mundo da dóxa, da opinião e das crenças. E o final disso tudo, pode ser a dominação, a submissão, a escravidão.

A

O Discurso Metafísico

17/08/2013 23:03

 

     A metafísica vem da antiguidade grega e tem como principal fundamentação o pensador Parmênides. Os pontos centrais do discurso pedagógico são: a REALIDADE EM-SI e a UNIVERSALIZAÇÃO DAS COISAS.

     A REALIDADE EM-SI é a realidade fora de contexto, recortada da totalidade a qual pertence; não existe nada solto, mas para a metafísica, existe. Fazer a análise em-si de uma coisa ou de um problema significa falar dessa coisa sem considerar a situação maior em que ela foi criada; considera apenas os aspectos imediatos, mais visíveis, mais simples. Veja um exemplo de análise de um problema em-si: uma mãe vai à escola conversar com a professora sobre o baixo rendimento de sua filha, que a descreve do seguinte modo: sua filha dorme muito em sala de aula; conversa muito; não faz atividades; não trás material didático; ela não deveria estar aqui, pois só está ocupando a vaga de quem quer estudar, conclui a mestra. Tudo isso que a professora citou não está errado, pois é o que ela percebe sobre a aluna, é só o que está ao seu alcance imediato; ela fez apenas uma análise em-si da aluna, a aluna enquanto aluna, e não a análise de uma pessoa que tem uma vida social, política, econômica, afetiva, etc. E tal análise muda de configuração quando a mãe relata à professora sobre o outro lado da vida de sua filha: eu e meu marido estamos em processo de separação; estamos desempregados; seremos despejados brevemente do imóvel onde moramos, pois não podemos mais pagá-lo; conseqüentemente, minha filha vive ansiosa, deprimida, não dorme direito em casa; não tem dinheiro para vir constantemente para a escola, nem para comprar livros; diante disso, é que ela passa a ter todo esse comportamento em sala de aula. Essa outra realidade não é acessível à percepção da professora, ficando ela, presa a uma visão metafísica sobre sua aluna, ou seja, retirou o problema da aluna de uma totalidade para explicá-lo fora, de forma em-si.

     Já a UNIVERSALIZAÇÃO DAS COISAS é envolver a realidade individual ou particular em um processo de generalização como forma de ignorância, de manipulação, de dominação ou de convencimento. Isso leva o discurso para o nível do abstrato, do complexo, do obscuro. É muito usado por políticos e religiosos... e por quem necessita dar uma boa mentira! Em tal processo é comum se utilizar os termos: “TODOS”, “TUDO”, “NENHUM”, “NINGUÉM” e “O” (equivalente a todo, como “O povo goiano é estudioso”).  Exemplos: 1. Todo político é ladrão; 2. Todo o Brasil votou em mim; 3. O brasileiro é ingênuo; 4. Nenhum homem presta; 5. Deus é tudo; 6. Todo mundo acredita em Deus, menos você! (como forma de convencimento).

     Como vamos identificar a presença da metafísica em um discurso? Através de um de seus princípios. Princípios Metafísicos: Princípio de Identidade; Princípio do Isolamento das Coisas; Princípio do Terceiro Excluído; Princípio da Não-contradição; Princípio das Divisões Eternas e Intransponíveis. 

                                                                                                                       Produção:  Rommel Gonçalves de Sá

O Utilitarismo Baré

27/10/2013 23:08

 

 

 

     Jeremy Bentham, pensador inglês do século XVIII, um dos precursores do UTILITARISMO, é considerado um pensador de grande relevância para o Direito. Escreveu a obra “Introdução aos Princípios da Moral e da Legislação” na qual expõe suas perspectivas com demasiado peso axiológico, pois os valores e a moral são submetidos a um cálculo matemático deliberativo, um método quantitativo, é o cálculo da valoração das condutas e das consequências das ações do homem em sociedade.  Bentham propõe uma substituição da teoria do direito natural pela teoria da utilidade, mostrando com isso a importância de se sair de um mundo fictício (presente no direito natural ou na lei que não atende mais às necessidades) e se ingressar no mundo dos fatos (realidade concreta), pois somente no mundo empírico é que podemos verificar a utilidade de uma ação ou de uma instituição. A teoria utilitarista de Bentham parte de pressupostos do hedonismo grego ou ética hedonista, na qual é bom o que proporciona prazer e evita o sofrimento. Daí vem o seu lema, que é a maior felicidade para o maior número de pessoas,  fazendo decorrer no princípio geral do utilitarismo: “Uma ação é moralmente correta quando produz o maior bem (felicidade – prazer) para o maior número de pessoas e/ou produz o menor mal (infelicidade – dor) para o menor número de pessoas”.

     Uma forte decorrência do utilitarismo é o método pragmático. O PRAGMATISMO é um método, que teve como um de seus criadores – William James. Esse método visa priorizar em suas ações o que é mais prático, menos burocrático, menos intelectualizado, o que se faz em menor tempo, o que há de menor custo. O conjunto de todas essas ações constitui o que é chamado de IMEDIATISMO, pois é considerado o mais útil. Tomar medidas pragmáticas implica em fazermos uso do imediatismo. Portanto, quando se recorre ao Utilitarismo, se está em busca de aplicar o que há de mais útil (imediatismo) conforme o princípio geral do Utilitarismo.

     A Ciência Política estuda Bentham porque sua teoria chama a atenção de quem está no poder político no sentido de preocupar-se em saber administrar a relação sofrimento/felicidade do povo, pois tanto a felicidade quanto a infelicidade tem uma função política e podem ser convertidas em energias e canalizadas contra quem está exercendo o poder.

     Os movimentos sociais que tomaram conta do país, recentemente, são expressões de infelicidade, de sofrimento de toda uma massa e que obrigaram a presidenta Dilma a tomar medidas utilitaristas e pragmáticas, como: o “mais médico”. Mas, ao mesmo tempo, está gerando infelicidade na classe médica brasileira no que diz respeito à revalidação do curso de medicina por parte dos médicos estrangeiros. Esse impasse levará a presidenta a aplicar o cálculo dos valores do utilitarismo, pois, na realidade, o que a legislação brasileira diz, já não é suficiente para atender a urgência de uma massa que sofre por conta de uma falência no sistema de saúde. O que mais vale: o sofrimento da massa médica brasileira (que é uma minoria) ou o sofrimento de uma maioria, que agoniza à míngua na porta dos hospitais públicos e é negligenciada e tratada, de forma arrogante e como “coisa” pelos médicos brasileiros?

     Segundo Bentham, “... Um ato de bondade é sempre uma demonstração de poder...”. Para uma população manauara pobre e que sofre por conta dos baixos salários, dos preços altos, do desemprego e da violência, uma copa do mundo de futebol poderá fazer “muito bem”. Apesar de gerar uma cegueira em relação à consciência política, grande parte dessa massa acredita que sua dor será atenuada com um mês de copa, que os problemas dos transportes coletivos (os frigoríficos humanos) estarão resolvidos, que o desemprego estará resolvido. Masoquismo de um fraco povo, que se satisfaz com as mentiras acerca das suas próprias dores e não enxerga nem a sombra das “aves de rapinas” que a sobrevoa...!

     Com o Utilitarismo é possível fazer verdadeiras apologias à imbecildade, que promovem a degradação das pessoas, são planejadas para anestesiar a dor e o sofrimento da massa, que passa a sentir-se tão feliz, que é capaz de votar nos candidatos políticos que as patrocinam por se acharem “curadas”. Coisa parecida ocorre em muitas Igrejas de Manaus – quando o sofrimento é atenuado por um simples processo psicológico, passa a ser visto pela massa que sofre como uma “benção”, tornando-se com isso, grata, a ponto de se resolver o “sofrimento” de uma minoria que pensa, porém maquiavélica, e que tira proveito dessa relação sofrimento/felicidade.

     Os shoppings de Manaus estão preparados dentro dessa perspectiva do utilitarismo, pois quando se fala de consumo, não se refere à busca de satisfações ou de estados de felicidade por meio do dinheiro, não. Os pobres que frequentam os shoppings e que sofrem pela falta de dinheiro conseguem consumir somente com o olhar o que está nas vitrines e alcançar uma sensação de pseudo-felicidade. Os shoppings “curam” pobres, também, ao contrário do que se pensa...!

     Portanto, é inevitável inferir que a infelicidade e a dor podem ser vistos como algo útil e necessário a manutenção do poder de muitos. São fortes variáveis para o poder político, pois toda uma massa infeliz pode representar possibilidades de insurgências e de anomias, mas o investir na felicidade da massa é garantia de manter a mesma no interior da “caverna” platônica, condição fundamental para a existência da política.

Produção: Rommel Gonçalves de Sá

O Empirismo Científico

 

17/03/2016 15:57     

 

    

     Dentro do Empirismo Científico podemos encontrar muitas referências, como Hume, Bacon e Locke. O Empirismo científico é uma das fontes geradoras de conhecimento que toma como ponto de partida a experiência sensível. A experiência sensível é a experiência na qual submetemos um objeto da realidade aos nossos sentidos. Nessa experiência, o objeto da realidade fornece ao sujeito uma série de impressões sensoriais para que o mesmo possa esboçá-lo dentro de si por meio da abstração (organização das impressões sensoriais do objeto), reproduzindo, mentalmente, esse objeto, constituindo assim um conhecimento acerca do mesmo.  Mas só a experiência sensível não basta, visto que os sentidos são fracos e podem nos enganar e nos levar ao senso comum. Temos que duvidar dos sentidos. E tal duvidar vem por meio da recorrência a algo que complemente os sentidos, para que se possa alcançar um grau de certeza e se evitar os erros do senso comum, que é o uso da instrumentação científica. Com a recorrência à instrumentação, quem tem a pretensão de fazer ciência se distanciará das possibilidades dos enganos e das ilusões, pois  somente assim conseguirá medir, pesar ou quantificar os fenômenos da realidade, submetendo os mesmos a um processo de organização por parte da razão. A razão é aquilo que organiza o que há de caótico no mundo ou na realidade. O que há de caótico no mundo são explicações advindas do senso comum, do mito e da religião, que por não assumirem um caráter de objetividade perante os fenômenos acabam por serem evasivos, explicando nada.

    O que mais caracteriza o Empirismo científico é o uso do Raciocínio Indutivo, que permite realizar experiências singulares ou individuais na forma de testes, a experimentação, retirando o que há de comum das mesmas para depois generalizar, assim: “teste 1 – o alumínio conduz calor; teste 2 – o ferro conduz calor; teste 3 – o cobre conduz calor”.  O que há de comum nas três experiências? Resposta: os 3 objetos testados são metais e os três conduzem o calor. Com isso se pode inferir que: “Logo, todo metal é condutor de calor”. Quando se anuncia essa generalização quer dizer que as experiências realizadas podem ser comprovadas e repetidas. Qualquer metal que se tomar e se jogar dentro dessa generalização conduzirá calor, será contemplado pela mesma, mesmo contando com a possibilidade de alguma margem de erro. Essa é a razão de qualquer um metal conduzir calor.

     Produção: Rommel Gonçalves de Sá

Categorias Conceituais do Pensamento de Maquiavel – Como nasce uma Ave de Rapina.

 Produção: Rommel Gonçalves de Sá

 Manaus, 2020.

 

  1. Contextualização histórica.

 

      Maquiavel foi um pensador do século XV/XVI, de Florença, renascentista, do início da modernidade. Publicou a obra “O Príncipe”, um grande manual de política, classificado como realismo político, um autêntico pessimismo antropológico. Com isso, inaugura a Ciência Política, ou seja, a Política torna-se uma ciência, na qual os fatos políticos passam a ser planejados e previsíveis, com métodos e leis. A partir dessa obra, a política e o Estado tornam-se laicos, sem influências da Igreja. Para ele, as pessoas não são transformadas em governantes por vontade divina, mas sim por vontade humana. Passando a revelar assim, sua forte inclinação para a forma republicana de governo – já chega de homens se considerando representantes de Deus aqui na Terra... .

          Com a publicação das obras “O Príncipe” e a “Arte da Guerra”, Maquiavel fornece ao mundo um verdadeiro manual de orientação para os que pretendem adentrar na vida política. Em tais obras encontramos a preocupação de Maquiavel em como se conquistar o poder, como se exercitar o poder e como se manter o poder.

    

  2. Natureza Humana

     Para Maquiavel, de natureza o homem é mal. Daí elaborou o conceito de natureza humana. Este conceito mostra que temos uma essência, aquilo que nos faz ser o que somos, realmente, mas que se mostra ou se revela de forma mascarada para tornar a convivência social agradável. Somos uma autêntica mentira, uma fraude, mas nos mostramos como verdade. E o conteúdo dessa natureza é constituído por tudo aquilo que há de pior no mundo, pelo que há de mais repugnante e intolerável por uma sociedade: a mentira, a violência, a traição, a hipocrisia. Porém, é explorando todo esse conteúdo, que a política ganha sentido.

     As pessoas gostam de mentir e também gostam de ouvir mentiras, faz parte da natureza humana. Por isso, existe o marketing, para vender o que presta e o que não presta. Por isso, existe o político, para dizer que cumprirá com suas promessas, sem cumpri-las. É o namoradinho que declara amor eterno à namoradinha, mas que um dia dirá que ama outra. A mentira não é algo inútil, tem uma função social, econômica e política. Por isso que existe ideologia. Quem diz estar decepcionado com alguém, por ter mentido, é porque não sabe que mentir faz parte da natureza humana, e que é algo a se esperar sempre dos outros. Uma professora dizer que seus alunos queridos, que ela trata como se fossem seus filhos, traíram-na, por terem colado em sua prova, é ingenuidade, pois traição faz parte da natureza humana e é algo a se esperar dentro das relações sociais. Será decepcionante se um pastor ou um padre cometer um assassinato?

 

 3. O Que é Política

         Maquiavel pensa a política a partir de um pessimismo antropológico, ou seja, não acreditando que o homem seja um animal bom, que o homem não é o que aparenta ser. O ato político é concebido escolha, escolher dentre um candidato A ou B em uma eleição é fazer política. Além de ser escolha, a política deve ser vista como um agir destinado às convivências, porém, um agir autônomo, destituído dos atrelamentos com a moral e com a ética, mas um agir conforme as circunstâncias e situações, tomando como base os conteúdos da natureza humana, que revelam o verdadeiro homem como um animal mal, de natureza, disfarçado de bom.

4. Fazer Política.

Fazer política é colocar em prática os conteúdos da natureza humana e utilizá-los ao seu favor, conforme circunstâncias e situações, objetivando a conquista do poder, o exercício do poder ou manutenção do poder.  A prática política, como era posta na Grécia Antiga, pressupõe a convivência, espaço da convivência, de como as pessoas devem se relacionar, se bem ou mal, de forma agradável ou não. Se convivem bem, o que fazem para isso? Se convivem mal, o que fazem para isso? A prática política define isso. A política pode ser feita dentro da família, dentro do trabalho, dentro da escola, dentro da sociedade. Praticamos política em todas as esferas da vida social, visto que “o homem é um animal social e político”, como dizia Aristóteles.  A política praticada dentro da Assembleia Legislativa do estado é uma política partidária.

 

5. O Que é o Poder

     O poder pode ser visto como um elemento que faz parte da natureza humana, mas que só se manifesta quando estamos diante de outra pessoa. Daí se concluir que o  poder é bilateral, ou seja, para que o mesmo se manifeste torna-se necessária a presença de pelo menos duas pessoas.

     Podemos ver o poder como a capacidade de controlar o outro ou os outros, segundo Weber. E isso ocorre quando duas pessoas se relacionam. Nessa relação, uma controla a outra, pois se apossa da consciência do outro, passando a executar ações que atendam aos interesses dela. Com isso, podemos afirmar que a pessoa controladora é a pessoa detentora do poder nessa relação. E tal relação passa a ser chamada de relação de poder. Relação de Poder é toda relação na qual o poder se manifesta, permitindo que uma pessoa exerça um controle sobre a outra ou sobre as outras.

     Para Maquiavel, a vida deve ser vista como uma “guerra”, como confronto permanente. E desse confronto, apenas um vive e, o outro morre. “Vive”, aquele que detém o poder e controla; “morre”, aquele que cabe obedecer e a ser controlado.

Uma pessoa controlada pode ser vista como uma pessoa dominada. E, para percebermos isso basta observarmos suas ações, pois toda ação é produto de um discurso. O discurso costuma pertencer a quem pensa (o dominador) que, intencionalmente, elabora (intelectualmente) a prática ou a ação para ser aplicada a quem vai executá-la (o dominado – aquele que irá obedecer). Aquele que domina afirma seu próprio “eu” a quem pretende dominar, enquanto que o dominado não consegue afirmar a si mesmo, mas sim, quem o domina, ao utilizar, normalmente, o verbo na terceira pessoa (“ele”), revelando uma ausência de si, de uma consciência de si, pois a mesma já não lhe pertence mais, mas sim a quem o domina.

6. Conquista do Poder

 

A Conquista do Poder é o processo destinado a constituir uma relação de poder com quem se pretende dominar. Para quem deveremos direcionar o foco da dominação: para uma outra pessoa? Para um grupo de pessoas? Para uma comunidade pobre? Para uma instituição? Para toda a sociedade? Quem, pretendemos submeter à nossa vontade? E como será feito isso? Por meio da violência, por meio de uma guerra, por meio da inversão dos valores, inventando inimigos? Os romanos conquistavam o poder por meio da guerra, invadindo territórios inimigos, saqueando as riquezas. Os fascistas conquistavam o poder identificando e apontando inimigos ou inventando inimigos (quando não encontra um), classificando pessoas.

 

7. Exercício do Poder

O exercício do poder é colocar o poder em prática, controlando o outro, subjetivamente ou objetivamente (utilizando leis, normas, regras, princípios, decreto-lei). Isso mostra que o poder também é posto em prática de diversas formas. Por isso que existe: poder econômico, poder político e poder ideológico. Por meio da propriedade privada se exercita o poder econômico; por meio dos aparelhos repressores de Estado se exercita o poder político; por meio da escola e da Igreja se exercita o poder ideológico.

 

8. Manutenção do Poder

 

Manutenção do poder, quer dizer: assegurar uma relação de poder, rever o status de dominador dentro dessa relação para não perder o poder conquistado, visto que o poder não é eterno, é temporal. E quem domina pode não continuar como dominador para sempre, pois o dominado pode inverter essa condição, como coloca Hegel, na Dialética do Senhor e do Escravo, dentro da obra “A Fenomenologia do Espírito”.

9. Importância da História

O estudo da História é considerado relevante para fazer política, segundo Maquiavel. A História pode nos mostrar exemplos de grandes personagens que foram bem-sucedidos ou não, nos processos de conquista, de exercício e de manutenção do poder. O que Getúlio Vargas fez para conquistar o poder e se manter tanto tempo no poder? O que Sadam Hussein fez para conquistar o poder e se manter no poder por tanto tempo? O que Fernando Collor fez para conquistar o poder e para não ter se mantido no poder por tanto tempo?

     Para iniciar o processo de conquista do poder, Maquiavel recorre ao conceito de Virtú. A virtú é um conceito que significa adequação à vida política. É um conceito utilizado por quem vai iniciar na vida política que se constitui em verdadeiro planejamento de como se conquistar o poder. A virtú chama a atenção para as seguintes questões que devem ser levadas em consideração por quem pretende ingressar na vida política:

1º É preciso ver o mundo como uma “guerra”;

2º Pensar em elaborar uma relação de poder;

3º Elaborar um estudo sobre quem se pretende dominar;

4º Agir com intencionalidade;

5º Agir com injunção.

6º Ardilosidade.

7º Simulacro.

8º Se agir com emoção, será preciso saber sentir. Emoção sob controle da razão. Apenas fingir que está comovido.

 

     Ver o mundo como guerra é lembrar de que a vida em sociedade pressupõe a existência do poder, visto que o poder tem como condição de existência a bilateralidade. E como o poder é nutrido por consciências, alimenta-se de consciências, isso nos encaminha a um jogo, a um confronto de consciências. E desse confronto é certo que um sairá com “vida” e o outro, com a “morte”. Daí sairá quem dominará e quem será dominado.

     Para que haja a conquista do poder é necessário que se constitua, primeiramente, uma relação de poder, pois sem ela, não se pode pensar em poder, afinal o poder é bilateral. Precisamos direcionar nosso foco para alguém, um grupo, uma comunidade ou uma sociedade e respondermos à pergunta: quem se pretende dominar? Quem é mais vulnerável à dominação?

     Como já se tem em mente quem se pretende dominar, então, a partir de agora se vai elaborar um estudo sobre tal pessoa, grupo ou comunidade, afinal é ingenuidade se pretender entrar em uma guerra sem se conhecer o inimigo, o potencial bélico do inimigo, pois isso poderá ser desastroso demais. Fazer um levantamento do perfil do inimigo é fundamental. É necessário se fazer um profundo estudo do inimigo, afinal a vida e a morte estarão em jogo e, alguém morrerá e alguém viverá. Qual você escolhe? Nesse estudo sobre o inimigo é preciso levar em consideração os seguintes aspectos: identificar  as fraquezas ou a tipologia da miséria do inimigo ou a miséria que mais predomina no inimigo (miséria intelectual, miséria emocional, miséria espiritual, miséria financeira); identificar as armas que o inimigo dispõe para lutar (conhecimentos, especializações, experiências); definir os simulacros a serem utilizados e direcionados ao inimigo (as formas de fingimentos, as ilusões a serem solicitadas), é o despertar do grande ator que há dentro de você; despertar o ser ardiloso (ser calculista, levar os outros a fazerem as coisas, mas com resultados induzidos por você, tornando tudo tendencioso) que há dentro de você; definir os direcionamentos da sua demagogia (o que se deverá prometer para não cumprir, o que se utilizará para agradar quem se vai dominar).

     Agir com intencionalidade é agir com o objetivo de se conquistar o poder, de se dominar. Tudo o que for feito em relação a quem se pretende dominar será feito visando esse fim, nada será feito em vão ou ingenuamente ou romanticamente, pois a conquista do poder pressupõe um planejamento. Aqui, não há espaços para se perder na emoção. É preciso saber sentir, ter controle sobre as emoções, para não perder o foco do objetivo, que é a conquista do poder.

     Agir com injunção é agir com ordem, é agir racionalmente, preso ao planejamento de conquista do poder, impondo ordem nas coisas para que assim as mesmas fiquem mais fáceis de serem controladas.

© 2023 por Escola de Arte. Orgulhosamente criado no Wix.com

(11) 3456.7890 | (11) 3456.7890

NOSSOS CURSOS

14

Março

Curso de Análise e Identificação de Discursos

26

Março

Curso de Destruição de Discursos

09

Abril

Curso de Psicologia do Discurso

12

Abril

Curso de Escrita de Discursos